quarta-feira, 17 de abril de 2013

Margarida Rebelo Pinto

"VERDADE E CONSEQUÊNCIA
(Cronica do ultimo fim de semana da Flash)

Devemos sempre dizer a verdade numa relação amorosa? Ou é melhor calar o que sentimos por pudor, por educação ou medo de ferir ou de perder o outro?
Acredito que a verdade é uma arma fundamental na construção de uma relação saudável, mas nem tudo deve ser partilhado. O passado de cada um, por exemplo, pode vir à tona, mas apenas em doses homeopáticas. Se um ou os dois estiverem sempre a comentar ou a citar os seus ex, não será uma relação apenas dois, e todos sabemos que as relações vão ao fundo quando têm demasiados passageiros.
A verdade deve ser usada no presente e no futuro, não em tempos passados nem no modo condicional. O modo condicional é uma forma altamente eficaz de minar a confiança numa relação. Se tu fosses mais magra, por exemplo, são coisas que não se dizem. É como se não fosses casado. Ou se não fosses parvo. Se um tipo é parvo, mais vale nem sequer tentar nada com ele.

E depois há a verdade crua e dura do dia-a-dia, aquela que nos consome em pequenos gestos que embirramos: o cotovelo na mesa, o tampo da retrete levantado, a toalha de banho amarrotada no chão, o barulho do outro a sorver o café ou a chinelar despreocupadamente pela passadeira da praia em pleno Verão. Ou os berros que dá quando o Benfica marca um golo. Se não gostamos da forma como o nosso parceiro pega no garfo, agarra no copo ou sorve ligeiramente o café, devemos dizer-lhe? Ou é melhor fechar os olhos e pensar que o defeito é nosso em dar importância a pormenores? Se estas ninharias não fossem importantes, as pessoas não reparavam tanto nelas. Um cotovelo mal posicionado em cima de uma mesa pode acabar com uma relação? Para algumas pessoas sim. Não porque o cotovelo retire o apetite a quem está sentado do outro lado da mesa, mas porque revela códigos de maneiras diferentes dos nossos. O mesmo pode suceder com pessoas que falam aos gritos se fomos educados numa família em que todos se comunicavam em modo sotto vocce. E o inverso também é possível: numa família alegre, barulhenta e calorosa, a presença de um apêndice que não sabe rir nem estar descontraído também nos pode pôr a pensar que se vai adaptar e se nós nos vamos adaptar ao facto do outro não se adaptar.

E depois existe a verdade na intimidade. Como dizer ao parceiro que tem mau hálito de manhã ou que se esquece de lavar a cara antes de se deitar? Como lhe pedir que durma de lado para não ressonar? Como impedir que dê pontapés durante a noite ou que estenda o braço na direcção da nossa almofada e nos dê com ele na testa?
Falar verdade nem sempre é fácil, confrontar o outro com a nossa verdade pode ser ainda mais difícil. Mas às vezes mais vale deitar tudo cá para fora com um sorriso do que ir acumulando pequenos ressentimentos que com o tempo se transforma em bolas de neve impossíveis de controlar.

A verdade não reside apenas nos grandes momentos. Ela instala-se nos pequenos gestos do quotidiano e treina-se como a prática de uma religião. Calar a verdade do que pensamos e sentimos em relação à nossa cara-metade vai acabar por mutilar a imagem que temos dela e isso pode destruir o encanto, muitas vezes por coisas que calamos. Não vale a pena brincar às escondidas com a verdade. Mais vale atira-la para cima da mesa como uma bomba, pedir ao outro que não ponha o cotovelo em cima da mesa, que não pegue no garfo como se fosse uma chave inglesa. Já dizia Oscar Wilde não há coisas grandes nem pequenas, todas são importantes. Vale mais falar do que calar, mesmo que doa um bocadinho e arcar com as consequências. Senão, depois ainda dói mais."

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